Uma reportagem exibida neste 01 de dezembro no programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, denunciou algo que a gente já sabe, mas que não tem poder de falar para o país todo: o desrespeito às pessoas que vivem nas comunidades rurais do Semiárido e ainda dependem de carro-pipa para ter acesso a água para beber, principalmente em período de estiagem.
No Sertão do São Francisco, na Bahia, reportagens de meios de comunicação locais já trataram do problema, relatos de moradores/as, associações, organizações populares já foram registrados e não foi uma vez só. Mas e as respostas, quais são? Não há respostas. O Exército e as prefeituras continuam a desrespeitar o direito vital do acesso à água, pois a água que garantem às populações, que geralmente não tem outra opção, são contaminadas, visivelmente sujas, com odores e gostos duvidosos.
Flagrantes de coleta de água em canais, área próximas a esgotos despejados no Rio São Francisco são recorrentes, mas certamente precisou a Rede Globo mostrar em rede nacional para muita gente se perguntar sobre a origem da água que bebe. Nas comunidades rurais da região, o índice de câncer só aumenta, do mesmo jeito que a reportagem do Fantástico mostrou. O câncer de estômago vem se alastrando, começa com um tal de refluxo, e em poucos meses pode ser um ente querido que se vai por conta dessa maldita doença que o povo evita até pronunciar o nome.
O carro-pipa continua sendo uma praga no Semiárido. Imaginem o montante público que se gasta com esta medida paliativa que tornou-se permanente, pois, assim como fazia o vereador de Ouricuri (PE) – conforme mostrou o Fantástico – ainda é moeda de troca, manutenção de currais eleitorais nos municípios do Sertão nordestino. Enquanto o Atlas Nordeste, desenvolvido a partir de estudos da Agência Nacional de Águas – ANA, aponta uma série de medidas que podem resolver a questão do abastecimento no Semiárido, os governos continuam a gastar recursos incalculáveis com o carro-pipa, sinônimo de politicagem, corrupção e ameaça à saúde pública.
Uma sugestão interessante para o Exército brasileiro seria qualificar seus contingentes para construir adutoras que levem água via tubulações, em vez de ficarem acampados na Ilha do Fogo ou sendo coniventes com os desmandos da Operação Carro-Pipa. Deviam ainda estudar a proposta de Convivência com o Semiárido defendida e colocada em prática pela Articulação do Semiárido brasileiro (Asa), para compreender que a água é algo que está diretamente ligado à segurança alimentar e nutricional, consequentemente, à qualidade de vida da população.
Por fim, pra se indignar, é importante questionar: que água bebem os comandantes? Nem os comandos do Exército, nem das prefeituras e nem mesmo os pipeiros bebem da água que levam para o povo. Também não sabem o que é o desespero da falta d’água num tempo de seca. O povo, esse povo que experimenta diariamente o sofrimento com a falta d’água, ainda aceita e até reivindica o carro-pipa, alimentando a certeza de que enquanto persistir essa passividade, a Justiça brasileira será apenas uma caixa receptora de denúncias, o Exército seguirá fazendo-se de cego, na ilusão de sua ação revolucionária, e as reportagens investigativas do Fantástico serão apenas “mais uma” reportagem, quem sabe para inspirar alguém a escrever um desabafo propositivo numa noite de domingo.
Por Érica Daiane Costa - Jornalista
ESSE É O PAIS DO LULA E DILMA.
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